Lulu Santos

Lulu Santos

Em cerimônia no Teatro Municipal do Rio, uma seqüência de clipes na qual sucessos de Lulu Santos eram cantados por diferentes grupos de anônimos – de meninas numa sala de aula a freiras, passando por garis, travestis, operadores da bolsa, patricinhas, peruas numa academia de ginástica, senhoras prá lá da terceira idade – resumiu com perfeição a abrangência que a obra deste cantor, compositor e guitarrista carioca de 51 anos atingiu. Esses clipes foram parte da festa de entrega do II Prêmio TIM de Música, em julho de 2004, na qual Lulu foi homenageado como artista do ano pelo conjunto de sua obra, tendo algumas de suas canções recriadas por, entre outros, Marcos Valle e Lenine. Prêmio e homenagem para um artista que, como poucos, conseguiu unir a atitude do rock à musicalidade da canção brasileira. Filho de um militar da Aeronáutica, Luiz Maurício Pragana dos Santos, passou parte da infância nos Estados Unidos, onde o pai fazia curso de especialização em engenharia aeronáutica. Como qualquer adolescente de sua geração, nos anos 60 ele foi capturado pelo som de Beatles e Rolling Stones. Mas antes disso já curtia Chubby Checker, Hank Ballard, Ray Charles e os discos de seus pais que rolavam em casa: Frank Sinatra, Perry Como e Andy Williams. A música brasileira entraria pela Jovem Guarda e, principalmente, pela Tropicália de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Mutantes, Gal Costa e companhia.

Mas o jovem Lulu Santos, guitarra em punho e longos cabelos encaracolados descendo pelos ombros, tinha o rock como meta. Era o que predominava em seus primeiros grupos: do Cave Man, que fazia cover dos Beatles em meados dos anos 60, aos, na década seguinte, Albatroz, Veludo Elétrico e Vímana. Neste terceiro, que atuou entre 1975 e 77, lançando apenas um compacto para a Som Livre (“Zebra” e “Masquerade”), Lulu trabalharia com outros músicos fundamentais para o rock brasileiro que tomou a cena a partir dos anos 80, Lobão e Ritchie. Antes do seu fim, o Vímana ensaiou por alguns meses com o tecladista suíço Patrick Moraz (que fizera parte do grupo Yes). A essa altura, Lulu já abrira seus horizontes, ligado que estava na música negra de então, soul e funk e disco e até jazz – este último, no grupo fusion Pomoja, que formou com o trompetista Márcio Montarroyos.

Ao lado do baixista Antonio Pedro (que passara pelos Mutantes e nos anos 80 seria um dos criadores da Blitz) e do cantor e tecladista Arnaldo Baptista (da lendária formação original dos Mutantes), Lulu também faria, em 1978, outro efêmero trio, Unziôtru. Num mercado quase sem espaço para o pop-rock brasileiro, Lulu Santos pendurou temporariamente as chuteiras-guitarras para ganhar a vida. Trabalhou por quase dois anos na gravadora Som Livre, ao lado dos produtores Guto Graça Mello e Ezequiel Neves (este, também o mais influente jornalista-roqueiro daquela época), selecionando as canções que entrariam nas trilhas das novelas da Rede Globo. Paralelamente, Lulu era um dos críticos de música da “Som Três”, então a principal revista especializada em música no Brasil. O trabalho na Som Livre funcionou como uma graduação em canção popular e logo um renovado Lulu estaria aplicando em suas composições esse aprendizado. Em 1980, com o nome de Luiz Maurício – por imposição de um diretor artístico da Polygram (atual Universal), que “ogramente” argumentava que Lulu não era nome de homem – ele lançou um compacto simples que passou em branco. Fracasso que não abalou o cantor e compositor.

Novamente como Lulu Santos, um ano depois, voltaria à carga. Contratado pela gravadora Warner, lançaria em seqüência três compactos que emplacariam nas rádios as canções “Tesouros da juventude”, “Areias escaldantes” e “De leve” (esta, uma versão feita por Gilberto Gil e Rita Lee para “Get back”, de Lennon e McCartney). Com “Areias escaldantes”, parceria com Nelson Motta, Lulu também participou do Festival MPB-Shell 1981. No ano seguinte, lançaria seu primeiro álbum, “Tempos modernos”, que, produzido pelo ex-baixista dos Mutantes Liminha, reuniria as canções dos compactos e ainda “De repente Califórnia” (outra parceria com Nelson Motta, e sucesso na trilha do filme “Menino do Rio”), “Tudo com você” (com Fausto Nilo), “Palestina” (com Nelson Motta) e “Scarlet Moon” (que Rita Lee escreveu para a jornalista e atriz, mulher de Lulu desde 1978).

A parceria com Liminha prosseguiu nos dois álbuns seguintes, “O ritmo do momento” (1983) e “Tudo azul” (1984). No repertório de ambos, mais e muitos sucessos radiofônicos, no que viria se tornar uma característica na carreira de Lulu, sempre marcando presença nas ondas. Em “O ritmo...” está aquele que é um dos maiores clássicos de Lulu e Nelson Motta, o bolero-havaiano-pop “Como uma onda (Zen-surfismo)”, e também “Adivinha o quê” e “Um certo alguém” (esta com letra de Ronaldo Bastos). Enquanto “Tudo azul”, além da canção-título (com Nelson Motta), é o disco de músicas como “O último romântico” (com Antonio Cícero), “Certas coisas” (com Nelson Motta), “Lua-de-mel”, “Tão bem” e “Respeito” (esta com Chacal). Além dos sucessos que emplacou nos rádios, no palco Lulu afirmou-se como o maior showman de sua geração. No que viria a ser outra constante em seu trajeto, depois desses discos de canções pop redondas, como que abrindo um novo ciclo, ele faria um álbum mais experimental. “Normal” (1985), produzido pelo próprio Lulu, era também mais roqueiro, flertava com os sons afro-caribenhos em “Ny popoya y papa” e consolidava o Lulu letrista – das 11 faixas, apenas duas eram em parceria, com Nelson Motta, “De repente” e “Atualmente”. “Normal” fechou o ciclo com a Warner. Um ano depois, ele faria “Lulu” na BMG, disco que bateria seus recordes de vendagem na época, chegando a 200 mil cópias. Para isso contribuiu o desempenho de canções como “Casa”, “Condição” e “Um pro outro”.

O disco seguinte, “Toda forma de amor”, lançado em 1988, manteria o ritmo e os hits, incluindo “A cura”, “Cobra criada” e a faixa-título. A grande turnê de lançamento, que percorreu boa parte do Brasil e chegou também ao Festival de Jazz de Montreux, na Suíça, gerou o primeiro disco ao vivo do cantor: “Amor à arte”. Ao vivo que fugia da fórmula de grandes sucessos. Entre esses, “Um certo alguém” e “Toda a forma do amor”, mas o repertório incluía ainda uma versão de Lulu para a beatle “Here comes the sun” (George Harrison), literalmente, “Lá vem o sol”; mais Beatles em “You’ve got to hide your love away” (Lennon e McCartney); e flertes com a MPB ao recriar Caetano Veloso (“Não identificado”) e Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira (“Asa branca”). Sinais de que outras mudanças estavam por vir. “Popsambalanço e outras levadas”, de 1989, era marcado por influências que iam dos Jorges Ben Jor (seu samba-pop inspira a composição de abertura, “Brumário”) a Mautner (numa leitura bossa-novista de “Samba dos animais”, de Mautner e Nelson Jacobina). Apesar de antecipar muito do que pautaria o pop-rock brasileiro da década seguinte, incluindo o revival de Bem Jor e o aceno ao samba, “Popsambalanço...” não teve a resposta dos discos anteriores. “Honolulu”, em 1990, também ficou aquém de sua média de sucesso, mesmo que puxado pelo hit “Papo cabeça”. Dois anos depois, Lulu mudaria para a Polygram (atual Universal), onde gravou o roqueiro “Mondo cane”. Ousado, e quase ignorado na época, apesar de um repertório com pérolas como “Fevereiro”, “Foi mal”, “Apenas mais uma de amor” e “Ecos do passado”. A passagem pela Polygram durou pouco e Lulu entrou na década de 90 sem gravadora.

O sucesso nas rádios de “Tim medley”, produção com o DJ Memê que reunia “Leme ao Pontal” e “Rodésia” em arrebatadora levada disco, provou que Lulu não era carta fora do baralho. Foi o suficiente para a BMG acenar com novo contrato, e, produzido por Marcello “Memê” Mansur, ele voltar por cima com “Assim caminha a humanidade” (1992). A dançante faixa-título mantinha o ritmo insinuado pela recriação de Tim Maia, mas o disco reafirmaria sua ligação com a MPB em “Bigorrilho” (Gomes, Paquito e Gentil) e “Tuareg” (Jorge Ben), faria ponte com o rock de Neil Young (“Hey hey, my my”) e traria pepitas com o mais puro padrão lulusantos em canções como “Febre”, “Graal” e “Tudo igual”. A parceria com o DJ e produtor e o mergulho na música das pistas seriam aprofundados em “Eu e Memê, Memê e eu” (1995), disco que bateu a marca de um milhão de cópias vendidas. Ele trazia versões turbinadas para sucessos de Lulu (“Casa”, “Toda forma de amor”, “Assim caminha a humanidade”, “Tudo bem”) ou de outros artistas: Tim Maia (“O descobridor dos sete mares”, “Sossego”), Roberto Carlos e Erasmo Carlos (“Se você pensa”) e Marina Lima e Antonio Cícero (“Fullgás”). De 1996, “Anti ciclone tropical”, nova produção de Memê, é introduzido por um dos grandes sucessos de Lulu Santos, “Aviso aos navegantes”. Em “Assaltaram a gramática II”, a parceria de Lulu com o poeta Waly Salomão, que fora lançada pelos Paralamas, ganhou um terceiro parceiro, Gabriel O Pensador, que também participou da gravação. O disco seguinte,“Liga lá”, em 1997, traz novo produtor, Marcelo Sussekind, e mais pop de viés experimental. Algo que se confirma tanto nas novas composições de Lulu – como “Hyperconectividade”, “Tempo/espaço”, “Creio”, “Kriptonita” e “Tempo/espaço contínuo” (esta em parceria com o maestro da Tropicália, Rogério Duprat, autor do arranjo) – quanto nas recriações de “Ando meio desligado” (Mutantes), “Fé cega, faca amolada” (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos), “De mi” (do argentino Charly Garcia), “Dê um rolê” (Moraes e Galvão, dos Novos Baianos) e “Chico Brito” (samba de Wilson Batista e Afonso Teixeira). “Calendário”, em 1999, marcaria o reencontro com o produtor Liminha, que também marcou presença no estúdio, alternando-se no baixo, nos teclados, nas guitarras e na programação de bateria.

A safra de canções mostrava que, ao contrário do que poderia sugerir o título do primeiro sucesso e faixa de abertura, “Fogo de palha”, a chama criativa de Lulu estava muito acesa, incluindo ainda petardos como “Mala & cuia”, “Bolado”, “Eu não” (esta com letra de Nelson Motta), “Brasil legal” e “Sábado à noite”. O ano seguinte foi tempo de revisão, com “Lulu Acústico”, o registro de sua participação na série da MTV. As 23 faixas desse CD duplo funcionam como síntese da obra de um mestre da canção. Tem “Condição”, tem “Aviso aos navegantes”, tem “Sereia”, “Tempos modernos”, “Um certo alguém”, “Como uma onda”, “Casa”, “Sábado à noite”, “Tudo bem”, “De repente Califórnia”... Passado relido (e muito presente), Lulu rodou boa parte dos anos 2000 e 2001 com o show “Acústico”. E recarregou as baterias criativas para seu primeiro disco de inéditas no novo século/milênio, “Programa” (2002), produção de dois músicos de sua banda, Alex de Souza e Christiaan Oyens. Canções como “Do outro mundo”, “Amém”, “Tempo real”, “A mensagem” e “Todo universo” mostravam a opção por mais desafios, num disco que também inaugurava uma parceria com o sempre moderno bossa-novista Marcos Valle e com Ed Motta, “Walkpeople”, e reunia em “4 do 5” Lulu e os Paralamas. “Bugalu”, em 2003, trouxe de volta as mãos e o cérebro do DJ Memê, que assinou a produção e programou muito dos barulhinhos bons e eletrônicos que pontuam o disco.

O compositor Lulu esbanja ótima forma em canções como “Já é”, “Leite & mel”, “As escolhas” (esta gravada num dueto com o cantor Pedro Mariano), “Língua presa” (nova parceria com Marcos Valle, que participa com seus Fender Rhodes e teclados), “Rito pagão”, “Delete” e “Jahu”. Em 2004, nova revisão de sua carreira com o disco “Ao vivo MTV”, produzido por Paul Ralphes. Nele, algumas das muitas músicas que invadiram as ondas radiofônicas e o imaginário do povo brasileiro. Algumas daquelas que, hoje, estão presentes tanto no repertório de meninas numa sala de aula quanto de garis varrendo as ruas, de freiras e travestis, de operadores da bolsa e patricinhas, de peruas numa academia de ginástica e senhoras prá lá da terceira idade... Assim como também marcam presença em discos de diferentes artistas da música brasileira: de novas bandas de rock que reverenciam o seu pioneirismo a grupos de pagode, passando por grandes intérpretes como Gal Costa, Milton Nascimento, Zizi Possi, Marisa Monte, Zé Ramalho e Marina Lima. Ele tem ainda em seu currículo colaborações com mestres como Gilberto Gil (Lulu produziu o CD “Bônus de carnaval”, que acompanhou o disco “Quanta gente veio ver”, de 1998) e Caetano Veloso (no disco “Noites do Norte ao vivo”, de 2001, estão as canções “O último romântico” e “Como uma onda” de Lulu, que se junta também ao compositor baiano na interpretação de “Cobra coral”). Flashes da obra de um artista em movimento, que, como naqueles seriados dos nossos irmãos do norte.